OLD Inexista

Sep 27 '10

O caso dos pássaros

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– Olha mamãe, que pássaros bonitos!    

Disse uma menina enquanto passava em frente a um grande viveiro, cheio de pássaros azuis, sabe-se lá de que espécie. Lá perto do aeroporto acontecia um evento voltado às belezas naturais que sobraram no país, já que as sociais se encontravam indignas de amostra e as culturais, em decadência. Com paciência e um pouco de sorte, era possível encontrar, em meio à multidão de curiosos, um caminho que levasse mais para dentro da exposição. No entanto, não sou desses que costumam andar no meio do povo. Na verdade, eu também não dou a mínima para essas exposições, nem lembro o porquê de eu estar passando por lá naquele momento. Vi quando chegaram umas pessoas trajando camisas verdes e calças jeans; três homens e duas mulheres que, a passos rápidos, se aproximaram do viveiro que continha os pássaros azuis. Fiquei surpreso no instante em que os três marmanjos puseram-se a balançar as grades da gaiola, deixando os pássaros agitados. De inicio, achei que fossem vândalos e sairiam correndo tão logo algum dos guardas do evento mostrasse as caras, mas não foi assim que a história se desenrolou. Os guardas foram chamados a averiguar a situação e junto com eles, veio o responsável pelos pássaros. Os jovens de camisas verdes disseram ser ambientalistas e estavam revoltosos com a exposição das aves em cativeiro. Exigiam a soltura dos animais imediatamente.

– Mas eles estão sendo bem tratados aqui. Temos um grupo de especialistas para isso. Tudo está de acordo com o regulamento.

Argumentou o responsável pelos pássaros. Os supostos ambientalistas não se aquietaram e uma das mulheres disse:

– Mas estes animais têm direito à liberdade assim como todos nós temos! Não podemos deixar de lutar pelos direitos deles!

Passaram mais alguns minutos discutindo até o momento em que os jovens ambientalistas começaram a se afastar da gaiola, fazendo o responsável pelos pássaros suspirar de alívio. Mas era fingimento. Os jovens voltaram e rapidamente abriram um rombo na grade do viveiro, os pássaros, pela primeira vez vislumbrando a liberdade, saíram todos apressados. Pude ver algumas penas azuis se espalhando pelo lugar e também a expressão alarmada do responsável pelas aves quando percebeu o ocorrido. Voltei meus olhos aos pássaros; eles batiam as asas, fascinados pela brisa, suas penas tremulavam enquanto ganhavam altitude. Antes que meu olhar abandonasse a cena por conta da demasiada utopia do momento, um avião que ia decolando ali próximo, no aeroporto, foi de encontro ao grupo de pássaros. Uma das turbinas fez o favor de sugar o bando inteiro de uma só vez. Foram uns dez segundos de tamanha estupefação, tanto minha como dos jovens ambientalistas e do responsável pelos pássaros, que só pôde ser mais ou menos definida pelas sábias palavras do guarda.

– Puta que pariu!

Com toda a tensão a que as circunstâncias levaram, não pude deixar de tecer um comentário. Dirigi-me aos ambientalistas:

– Agora eles ficaram tão livres que nunca mais vão precisar de alguém que lhes pague a ração!

Sorriso sarcástico pela situação, uma leve tristeza pelos pássaros e fui-me embora dali antes que fosse forçado a ver a turbina do avião falhar.

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Aug 22 '10

Vive vida Morre morte

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                                   Nasce cresce pensa quer

                         Lembra sonha morre acorda

                                   Vive vida sonha sonho

                         Morre morte acorda finge

                                   Dorme come bebe esquece

                         Fuma cheira podre podre

                                   Cansa cai desiste lembra

                         Morre morte acaba tudo.

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